Um novo relatório da Mighty Earth, por meio de seu programa de monitoramento Rapid Response, em parceria com a AidEnvironment e a Repórter Brasil, revela que a maior empresa de carne do mundo, a JBS, foi flagrada comprando gado diretamente de duas fazendas fornecedoras na Amazônia com alertas recentes de incêndios relacionados ao desmatamento. As fazendas foram associadas a quase 1.400 hectares de desmatamento em 2025 e, entre elas, foram registrados 89 alertas de incêndio.
Ambas as fazendas, localizadas no Pará, forneceram gado diretamente para dois frigoríficos da JBS no estado entre setembro e dezembro do ano passado. Em ambos os casos, o desmatamento foi identificado pelo DETER (Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real), o sistema de monitoramento por satélite do Brasil, e verificado por nossa equipe de pesquisa.
A venda de gado das fazendas Fazenda Esperança e Fazenda Jaguari, no Pará, foi confirmada por documentos recentes de transporte animal, conhecidos como GTAs. A JBS não respondeu às nossas perguntas sobre vínculos comerciais com nenhum dos sete estudos de caso destacados em nosso relatório Rapid Response #7.
Destaques:
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A JBS provavelmente está ligada a todos os sete casos destacados no novo relatório Rapid Response #7 da Mighty Earth, representando 6.472 hectares — ou mais de 9.000 campos de futebol — de desmatamento recente e conversão em fazendas de gado nos biomas Amazônia e Cerrado no Brasil.
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Nossa investigação também constatou que a área total destruída entre agosto de 2023 e setembro de 2025 em propriedades que abastecem não apenas a JBS, mas também frigoríficos da Marfrig e da Minerva Foods, ultrapassa 109.034 hectares. A JBS, sozinha, é responsável por 62% desse total.
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O estudo aponta uma possível ligação entre o desmatamento na Fazenda Asa Branca, na cadeia indireta de fornecimento de carne bovina da JBS no Pará, e seu frigorífico em Marabá, que está localizado ao lado de um de seus curtumes. É muito provável que os couros crus de gado provenientes da fazenda desmatada Fazenda Asa Branca, provavelmente abatido na unidade da JBS em Marabá, de acordo com dados de movimentação de gado, tenham sido processados no curtume adjacente. Isso ocorre em um momento em que a indústria do couro pressiona fortemente por sua exclusão do Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR), alegando que o couro não tem impacto na perda de florestas.
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A análise destaca que a maior área de desmatamento, 2.992 hectares, ocorreu dentro do Território Indígena Kapôt Nhĩnore, no Pará, na Amazônia, em uma fazenda da cadeia indireta de fornecimento de gado da JBS. Ao todo, 201 fazendas estão localizadas dentro do território.
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De forma mais ampla, constatamos que frigoríficos da JBS que fornecem produtos de carne bovina para quatro supermercados brasileiros — Carrefour, Grupo Mateus, Grupo Pão de Açúcar e Sendas-Assaí — estiveram ligados a 67.542 hectares de desmatamento e conversão de terras nos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal entre 2023 e 2025.
Mariana Gameiro, Assessora Sênior e Líder do Programa Rapid Response na Mighty Earth, disse:
“Flagramos a JBS comprando recentemente gado de fazendas em sua cadeia de fornecimento direta, após alertas de incêndios nessas propriedades na Amazônia terem sido divulgados pelo sistema DETER de monitoramento por satélite do Brasil. As ligações comerciais com a JBS foram verificadas por dados recentes de transporte de gado. Entre os sete casos de perda de vegetação identificados no nosso relatório, a maior area destruida ocorreu dentro do Território Indígena Kapôt Nhĩnore, invadido por mais de 200 fazendas.”
“A JBS prometeu carne livre de desmatamento no Pará, o estado amazônico com a maior taxa de desmatamento no Brasil. Mas ela parece estar comprando gado criado em áreas desmatadas por fogo, ao mesmo tempo em que implementava a rastreabilidade por brincos eletrônicos nos animais. Isso indica uma falha significativa em seu monitoramento.”
“Nossa análise também destaca uma possível ligação entre uma fazenda indireta que fornece gado a um frigorífico da JBS localizado no mesmo local que um de seus curtumes. A indústria do couro está pressionando fortemente por sua exclusão do escopo do EUDR, alegando que esse coproduto da produção de carne bovina não impulsiona o desmatamento. A rastreabilidade do couro está intrinsecamente ligada à cadeia de fornecimento da carne bovina e, para garantir a integridade do EUDR, o couro deve permanecer nessa legislação histórica.”
Ligação do couro com o desmatamento
Às vésperas da revisão do escopo do Regulamento da União Europeia sobre Desmatamento (EUDR), a indústria do couro tem feito lobby para excluir esse coproduto das indústrias de carne bovina e laticínios da legislação. O relatório Rapid Response #7 da Mighty Earth aponta que a rastreabilidade do couro depende de cadeias de fornecimento de gado brasileiras transparentes — e que há opacidade nos estágios iniciais da produção, ou seja, nas fazendas indiretas de gado.
O relatório destaca a probabilidade de que couros provenientes de áreas desmatadas estejam entrando nos mercados globais de moda de luxo e nas cadeias de fornecimento de grandes montadoras, evidenciando a ligação intrínseca entre carne bovina e couro. De acordo com a JBS, mais de 90% dos couros do gado que processa têm origem em seus próprios frigoríficos.
O papel do varejo
Apesar dos alertas regulares de desmatamento enviados pela Mighty Earth a frigoríficos e grandes varejistas nos últimos três anos, a nova análise conclui que esses supermercados no Brasil ainda estão vendendo produtos de carne bovina provenientes de regiões de alto risco, onde a destruição da natureza persiste.
De 28 de dezembro de 2024 a 15 de setembro de 2025, uma equipe de consumidores, voluntários e pesquisadores coletou dados sobre 621 produtos de carne bovina em 61 lojas de varejo no Brasil, utilizando o aplicativo móvel Do Pasto ao Prato (dPaP). Os produtos foram coletados em lojas do Carrefour (37 lojas), Grupo Mateus (2 lojas), Grupo Pão de Açúcar (11 lojas) e Sendas-Assaí (11 lojas). A análise vinculou os 621 produtos escaneados a 98 frigoríficos em 17 estados do Brasil.
O que estamos exigindo:
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Os frigoríficos devem suspender operações com fazendas de alto risco e exigir que elas abordem os riscos recentes e futuros de desmatamento associados à produção de gado.
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Carrefour, Grupo Mateus, Grupo Pão de Açúcar e Sendas-Assaí devem investigar suas ligações diretas e indiretas com os casos do relatório e suspender quaisquer fazendas identificadas como fornecedoras ligadas a desmatamento recente e conversão.
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Os varejistas devem divulgar imediatamente, em uma plataforma pública, o volume e a origem de seus produtos de carne bovina e couro — incluindo detalhes sobre os frigoríficos, listas de fazendas fornecedoras diretas e indiretas, e a proporção de produtos provenientes de cadeias verificadas livres de desmatamento e conversão (DCF).
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Além disso, instamos que relatem e acompanhem publicamente todos os casos alegados de desmatamento, conversão de terras e violações de direitos humanos por meio de um mecanismo público de denúncias.
Link para o relatório em Português aqui-> RapidResponse#7Port_vf
Fonte: Mariana Gameiro, Assessora Sênior e Líder do Programa Rapid Response na Mighty Earth










