O câncer de pulmão é o tumor mais letal do Brasil, ficando atrás apenas dos cânceres de próstata (homens) e mama (mulheres). Dois estudos apresentados nesta sexta-feira, dia 29, no congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (Asco, em inglês), dão nova perspectiva para pacientes com a doença em estágio avançado. O encontro reúne cerca de 45 mil médicos e pesquisadores de todo o mundo em Chicago, nos Estados Unidos.
A atualização de sete anos do estudo CROWN reforçou o impacto transformador da terapia-alvo no câncer de pulmão ALK-positivo. Os dados mostraram que mais da metade dos pacientes tratados com lorlatinibe seguem sem progressão da doença após sete anos, um resultado sem precedentes em câncer de pulmão metastático.
Já o estudo WU-KONG28 apontou que um inibidor da enzima tirosina quinase direcionado a mutações do receptor do fator de crescimento epidérmico (EGFR) supera a quimioterapia baseada em platina como tratamento de primeira linha para pacientes com câncer de pulmão avançado com mutação de inserção no éxon 20 do EGFR.
Na visão da a médica especializada em câncer de pulmão Samira Mascarenhas, da Oncologia D’Or, esses estudos reforçam a evolução da medicina de precisão no câncer de pulmão. “Atualmente conseguimos desenvolver tratamentos cada vez mais direcionados para alterações moleculares específicas, com eficácia superior a quimioterapia”, explica.
Ela ressalta, no entanto, os avanços só chegarão realmente aos pacientes, quando o acesso ao diagnóstico molecular completo for ampliado e realizado em tempo adequado. “Não existe medicina de precisão sem diagnóstico de precisão. Garantir acesso amplo à testagem molecular é uma etapa essencial para que possamos oferecer tratamentos mais eficazes, personalizados e com maior impacto em sobrevida e qualidade de vida.”
Câncer de pulmão
O Instituto Nacional do Câncer (Inca) estima que, em 2026, 35.380 brasileiros deverão ser diagnosticados com câncer de traqueia, brônquio e pulmão. Os fumantes devem representar 75% dos casos registrados.
Os sintomas mais comuns são tosse, falta de ar, dor torácica, perda de peso, cansaço e presença de sangue no escarro. Como eles não se manifestam no início da doença, cerca de 70% das pessoas são diagnosticadas em estágio avançado, dificultando o tratamento. Em 2023 ocorreram 31.237 óbitos pela doença, dos quais 55% em homens.
Estudo CROWN
Inibidores da enzima tirosina quinase são utilizados para o tratamento de primeira linha do câncer de pulmão de não pequenas células avançado com mutações nos genes ALK ou ROS1. O estudo CROWN foi criado para comparar a eficácia de dois inibidores dessa enzima: crizotinibe, que foi o precursor dessa classe de medicamentos, e lorlatinibe, que representa a terceira geração desses produtos.
Na ASCO 2026, foram apresentados os resultados de sete anos do uso desses dois medicamentos. Os pacientes tratados com lorlatinibe apresentaram uma probabilidade de 55% de permanecerem vivos sem progressão da doença em comparação com 3% no grupo que recebeu crizotinbe. Além disso, o medicamento reduziu em 81% no risco de progressão da doença ou morte em comparação com crizotinibe.
O estudo também confirma um controle intracraniano muito expressivo e uma duração de resposta extremamente prolongada, aspectos fundamentais em uma população geralmente mais jovem e com alta incidência de metástases cerebrais ao longo da evolução da doença.
“Esses resultados consolidam o lorlatinibe como um dos tratamentos mais eficazes já desenvolvidos em oncologia torácica e reforçam uma mensagem importante: quando conseguimos oferecer testagem molecular adequada e acesso precoce às terapias-alvo mais eficazes, podemos modificar de forma profunda a história natural do câncer de pulmão”, afirma a oncologista Samira Mascarenhas.
Estudo WU-KONG28
Esse trabalho demonstrou que a terapia-alvo sunvozertinibe foi superior à quimioterapia baseada em platina como tratamento de primeira linha para pacientes com câncer de pulmão avançado com mutação de inserção no éxon 20 do EGFR.
A mediana de sobrevida livre de progressão foi de 10,3 meses com sunvozertinibe em comparação aos 7,5 meses proporcionada pela quimioterapia, o que representou uma redução de 35% no risco de progressão ou morte.
A taxa de resposta objetiva foi de 58,9% com sunvozertinibe e 31,1% com quimioterapia. E a duração mediana de resposta foi de 11,2 meses no primeiro grupo, ante 7,1 meses no segundo. Os dados de sobrevida global ainda são imaturos. O estudo reforça o potencial do sunvozertinibe como uma nova opção de terapia-alvo oral para um subtipo molecular raro e historicamente associado a poucas alternativas eficazes de tratamento.
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