Segundo a Folha, o Banco Master de Daniel Vorcaro foi credenciado pelo Exército Brasileiro para operações de empréstimos consignados a militares da ativa e da reserva e, em pouco mais de um ano, recebeu R$ 39 milhões em repasses da Força. O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) registrou o caso num relatório de inteligência financeira (RIF) enviado em março à CPI do Crime Organizado no Senado, apontando duas possibilidades de irregularidades no destino do dinheiro. O documento sigiloso foi obtido pela Folha de S.Paulo, e os números nele citados são confirmados pelo Portal da Transparência do governo federal.
Segundo o RIF do Coaf, elaborado com base nas transferências ocorridas entre agosto de 2024 e outubro de 2025, duas condutas do Master justificaram o alerta. A primeira é o débito imediato dos valores recebidos do Exército, o que pode indicar transações suspeitas e desvio do destino original do dinheiro. A segunda é a concentração dos recursos numa mesma titularidade pelo banco de Vorcaro, movimentação que dificulta a identificação de outros beneficiários.
Os dados públicos do Portal da Transparência confirmam os números do relatório sigiloso: o Master recebeu do Exército R$ 36,1 milhões em 2023, R$ 37,6 milhões em 2024 e R$ 23,4 milhões em 2025, referentes aos descontos nos contracheques de militares que contrataram crédito consignado com o banco.
Dois termos aditivos prorrogaram o contrato até 2027
O Master foi credenciado pelo Comando do Exército em 9 de fevereiro de 2023, num contrato inicialmente vigente até fevereiro de 2024. Dois termos aditivos prorrogaram a parceria: o primeiro em janeiro de 2024 e o segundo em janeiro de 2025, estendendo as operações até janeiro de 2027. O contrato só foi rescindido em 24 de novembro de 2025, seis dias após o Banco Central decretar a liquidação do Master, em 18 de novembro. O Exército agiu de forma unilateral e apenas depois que o banco já havia sido liquidado.
Militares com conhecimento do funcionamento dessas operações ouvidos pela Folha afirmam que o valor total dos repasses ao Master é mediano em comparação com outras instituições credenciadas, mas que chama atenção a escolha pelo banco de Vorcaro quando havia disponíveis instituições financeiras mais tradicionais e consolidadas no mercado.
Aeronáutica também tinha contrato com o Master — e não revela os valores
O mesmo RIF do Coaf menciona a existência de contrato similar entre o Banco Master e a Força Aérea Brasileira, sem detalhar os valores. A FAB confirmou à Folha que credenciou o Master num contrato com vigência entre 2024 e 2029 para desconto em folha de pagamento de militares ativos, inativos e pensionistas, e que realizou repasses ao banco em 2024 e 2025. A Aeronáutica não forneceu os valores movimentados.
A FAB afirmou que após a decretação da liquidação extrajudicial do Master e diante da ausência de ratificação dos dados bancários da entidade liquidante, não foram realizadas novas transferências. O credenciamento envolve 234 entidades no total, segundo a Força.
O Exército diz que não houve perda — mas o Coaf discordou o suficiente para emitir alerta
Em nota, o Exército afirmou que não houve perda patrimonial para a Força ou para os cofres públicos, argumentando que os valores são oriundos de rendimentos particulares dos militares para pagamento de dívidas privadas, e que o Comando atua apenas como interveniente nos descontos em contracheque. O banco foi credenciado após participar de edital público e comprovar os requisitos exigidos, segundo a Força.
O argumento do Exército, porém, não responde ao que o Coaf identificou: não é a origem do dinheiro que está em questão no RIF, mas o destino que o Master deu a ele depois de receber os repasses. O débito imediato dos valores e a concentração numa mesma titularidade foram suficientes para o órgão de inteligência financeira emitir um alerta formal, registrar o caso e enviar o documento à CPI do Crime Organizado — comissão que o governo Lula tratou de encerrar sem relatório aprovado na semana passada.
Por Hora Brasilia










