Uma fala de Matt Damon durante as entrevistas de divulgação de “Dinheiro Suspeito” chamou a atenção do público. O astro afirmou que a Netflix orienta roteiristas de filmes e séries em reforçar determinados aspectos da trama ao longo das histórias, independente se isso acabe sendo repetitivo e desnecessário. A razão seria manter preso um público cada vez mais disperso durante 60, 90, 120 minutos sem ficar perdido.
O sincerícidio do galã não chega a ser novidade para que já assistiu qualquer projeto recente do streaming, inclusive, este policial do diretor e roteirista Joe Carnahan. Logo nos primeiros 10 minutos, a estratégia já fica aparente: a partir da morte da capitã Jackie Velez (Lina Esco), os policiais do grupo dela são interrogados pela suspeita de envolvimento no crime.
Com todos os diálogos expositivos possíveis e imagináveis, sabemos sobre a Equipe Tática de Narcóticos (ETN) foca na apreensão de dinheiro vindo do tráfico, o clima de suspeição que paira entre as autoridades de Miami estarem corrompidas ou não, a parceria entre aquele grupo – a detetive Nuna Baptiste (Teyana Taylor) chega a chamar Velez de ‘minha vadia’.
Se a pessoa não entender nada, certamente já estava no TikTok ou Instagram rolando os feeds, mas, fique tranquilo: não será nada que você deixará de ver nos próximos minutos. “Dinheiro Suspeito”, então, começa a jogar para saber quem é o ‘rato’, o traidor responsável por causar a morte da delegada. A estratégia possui a sutileza de rinoceronte ao ficar repetindo que fulano é muito confiável ou que tal personagem pode acreditar naquilo que determinada figura diz. Nem precisa ser muito esperto para matar a charada e saber onde esta conversa vai dar.
Os vícios da Netflix, infelizmente, não se resumem a repetição proposital para manter os distraídos. Sem um pingo de criatividade estética ou de planos, “Dinheiro Suspeito” possui uma estética de filme barato, feito às pressas em ambientes fechados ou com um CGI para economizar. Em “Dinheiro Suspeito”, Joe Carnahan não oferece nem o realismo das ruas de “Narc” muito menos o virtuosismo de “Esquadrão Classe A” e “A Perseguição”; no máximo, uma neblina cretina no bairro onde o ETN encontra os milhões escondidos em uma casa confere um ar ora teatral ora um fantasmagórico canhestro.
Esta estética pobre tira muito da força de uma obra que busca criar um clima de conspiração maior dentro da polícia de Miami. Com tudo resolvido a espaços fechados, perde-se a dimensão de algo maior, realmente perigoso, envolvendo, no fim das contas, um pequeno grupo. Para uma cidade que se viu na tela com toda sua amoralidade e complexidade registradas de forma brilhante por Michael Mann em “Miami Vice”, a produção da Netflix é de uma timidez brutal.
Apesar de tudo isso, “Dinheiro Suspeito” consegue segurar o público graças ao bom elenco. Não é todo dia que você pode ver reunidos no elenco coadjuvante três indicados ao Oscar como Teyana Taylor (mal aproveitada demais), Steven Yeun e Catalina Sandino Moreno, além dos sempre competentes Neston Carbonell e Kyle Chandler. Já a dobradinha Matt Damon e Ben Affleck não traz nada de novo ao que já vimos em tantos filmes, mas, o espírito de broderagem da dupla, capaz de se entenderem no olhar, tão conhecido de todos nós, torna tudo o que vemos bem mais interessante.
Não há nada diferente em “Dinheiro Suspeito” de outras superproduções da Netflix repletas de estrelas de Hollywood em filmes de ação ou suspense. Tal qual “O Agente Oculto” com Ryan Gosling e Chris Evans, “Alerta Vermelho” com Dwayne Johnson, Gal Gadot e Ryan Reynolds, ou “The Eletric State” com Chris Pratt e Millie Bobby Brown, o longa com Ben Affleck e Matt Damon é um grande vazio de ideias, nada inspirado, mas, que não ofende, especialmente os distraídos. Estes serão sempre prestigiados com repetições de falas, situações e, claro, dos mesmos tipos de filmes.
Fonte: cineset














