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Entenda o “ponto cego” que permitiu ao crime organizado movimentar R$ 26 bi dentro do sistema financeiro

A ação cumpre 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

28 de maio de 2026
em Últimas Notícias
Entenda o “ponto cego” que permitiu ao crime organizado movimentar R$ 26 bi dentro do sistema financeiro

O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), do Ministério Público de São Paulo, e a Receita Federal deflagraram, na manhã desta quinta-feira (28), a Operação Fluxo Oculto — nova fase da Operação Carbono Oculto. A ação cumpre 59 mandados de busca e apreensão em cinco estados: São Paulo, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.

Fintechs da Faria Lima continuaram atuando

Segundo o Ministério Público, fintechs sediadas na Avenida Brigadeiro Faria Lima, principal centro financeiro de São Paulo, continuaram ocultando dinheiro do crime organizado mesmo após a operação realizada em agosto do ano passado.

De acordo com os promotores, o grupo criminoso ignorou a ação anterior, ampliou o desvio de nafta — solvente petroquímico importado — e abriu novas empresas de fachada.

“A organização ligada ao PCC se reestruturou rapidamente, expandiu as operações e manteve o mesmo padrão criminoso detectado no ano passado”, afirmaram os investigadores.

R$ 26 bilhões em movimentações suspeitas

Relatórios de inteligência financeira apontaram movimentações atípicas de quase R$ 26 bilhões. Segundo o MP, fintechs e plataformas de pagamento funcionavam como “dutos financeiros” usados para ocultar recursos do esquema criminoso.

Como funcionava o esquema

O grupo utilizava instituições de pagamento para lavar dinheiro por meio do modelo conhecido como “conta-bolsão” e “conta gráfica”.

Na prática, recursos de dezenas de postos de combustíveis eram depositados em uma única conta vinculada ao CNPJ da fintech. A divisão interna dos valores ocorria apenas nos sistemas da empresa, dificultando o rastreamento pelo Banco Central e pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Segundo a investigação, sempre que havia fiscalização, os recursos eram rapidamente transferidos para outra fintech.

Líderes do esquema seguem foragidos

As investigações apontam que o esquema era liderado por Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, e Roberto Augusto Leme da Silva, o “Beto Louco”. Ambos estão foragidos desde agosto do ano passado.

Os dois chegaram a tentar um acordo de delação premiada com o Ministério Público, mas a proposta foi rejeitada. Os promotores afirmam que eles omitiram informações sobre lavagem de dinheiro, ligações com o PCC e corrupção policial.

As três frentes da operação

1. Lavagem de dinheiro via fintechs

Segundo o MP, fintechs como BK Bank, Ceopag, Sispay, Vpay, Yaw e Smart Solutions Group eram usadas para movimentar recursos do esquema.

A Smart Solutions Group teria movimentado mais de R$ 1,2 bilhão, sendo quase metade destinada à GGX Global, holding ligada aos postos do grupo criminoso.

Já a Ceopag registrou movimentações consideradas suspeitas de R$ 359 milhões em créditos e R$ 513 milhões em débitos em curto espaço de tempo.

2. “Máfia da nafta” e adulteração de combustíveis

As investigações apontam que produtoras e importadoras emitiam milhares de notas fiscais falsas para simular a venda de nafta a empresas de fachada registradas em nome de “laranjas”.

Na prática, o produto era desviado e misturado à gasolina em distribuidoras e terminais terrestres antes de ser vendido ao consumidor final.

Segundo o MP, o desvio comprovado ultrapassou 135 milhões de litros de nafta em pouco mais de dois anos.

A empresa Petrodansk teria emitido mais de 10 mil notas fiscais falsas, totalizando R$ 1,49 bilhão. O prejuízo estimado com sonegação fiscal supera R$ 200 milhões.

3. Lavagem de dinheiro com fundos de investimento

A terceira frente investigada envolve o uso de Fundos de Investimento em Direitos Creditórios Não Padronizados (FIDC-NP).

Segundo os investigadores, empresas fantasmas emitiam boletos pagos pelos fundos em operações consideradas fictícias, com prazos extremamente curtos e sem deságio.

Para bloquear bens ligados ao esquema, a operação mirou fundos com patrimônios de:

  • R$ 85 milhões (Zeus)
  • R$ 72 milhões (Gran Capital)
  • R$ 47 milhões (DB Crédito Global)

Tentativa de delação rejeitada

Em maio deste ano, o Ministério Público rejeitou a proposta de delação apresentada por “Primo” e “Beto Louco”. Segundo os promotores, os investigados esconderam informações relevantes sobre o funcionamento da organização criminosa e suas conexões com o PCC.

Por Gazeta Brasil

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